Terno Rei lançou, em fevereiro de 2019, seu terceiro álbum, Violeta.
Este disco foi bastante aclamado pela mídia pelo fato de a banda ter combinado elementos do shoegaze com os de ambient, criando uma sonoridade parecida com as das bandas Foxes in Fiction e Cemeteries, além de se destacar por algo próprio do Terno Rei – uma musicalidade que dialoga com sonoridades antigas do gênero, cuja inspiração se vê nitidamente em Cocteau Twins, Slowdive e The Jesus and Mary Chain. Trata-se de um álbum que conecta, de forma progressiva, o amor, os conflitos existenciais e celebrações – que, segundo o site Miojo Indie, se articulam de maneira honesta. Um álbum bastante adolescente, por assim dizer.
Por se tratar de um álbum extenso demais para meu pouco tempo, me limitarei a falar um pouco da obra num geral e das músicas que mais me chamaram a atenção.
A arte de capa é bastante previsível em álbuns de shoegaze, apresentando uma imagem do rosto de uma mulher, focalizado na boca, sem mostrar os olhos. Talvez isso revele um pouco do teor de Violeta – um álbum anônimo, que vai abordar temas universais nas vidas dos adolescentes, tendo uma tendência um tanto quanto erótica. E isso acaba se revelando, de fato, ao escutar as músicas, que me fazem ter a impressão de que se trata de um disco-diário, por ter uma sonoridade progressiva e por ter canções que acabam se entrelaçando, como é o caso de “Dia Lindo” e “93”.
Além disso, os vocais são chiados, sofridos e juvenis, tendo eu várias vezes tido flashbacks de meu ensino médio enquanto o ouvia. Os instrumentais também corroboram para garantir tal efeito. Trata-se, logo, de um álbum que conversa com a juventude – pelos seus aspectos considerados mais mundanos – de forma bastante poética e bem construída.
Acerca das canções, me atento à duas que, especialmente, me chamaram à atenção: Yoko e Solidão de Volta. A primeira, que abre o álbum, aborda um amor por parte de uma pessoa que se sente vazia – que supostamente se confunde, ama mas está “juntando os cacos” e que quer se sentir confortável novamente, sendo uma canção que me tocou bastante, pelo fato de a temática ser incrivelmente inusitada e precisa, embora trate de uma confusão mental. A sonoridade parece uma apaixonante mistura de Cemeteries com Joy Division. Costumo me perguntar se esta música tem alguma relação com a conturbada e polêmica relação entre John Lennon e Yoko Ono.
Já Solidão de Volta, a terceira música do álbum, segue na linha da melancolia por se tratar, principalmente, de um conflito existencial, do sentimento de não pertencimento e da solidão adolescente, como se vê no verso: “Onde vou agora? Respirar lá fora Eu já tenho a solidão”. A sonoridade me lembra um pouco os outros projetos da banda, apesar de se perceber uma nítida maturidade tanto na composição quanto na execução.
Gosto de dizer que, após ouvir Violeta inúmeras vezes ao longo da semana, me apaixonei novamente pelo shoegaze nacional – por ser um projeto interativo. Para mim, a música é um poderoso instrumento comunicativo, que dialoga mais profundamente com o emocional – e confesso que há uma certa dificuldade em se encontrar álbuns que façam isso de maneira precisa, sejam eles do mainstream ou não. E o Violeta conseguiu atingir esse objetivo. Portanto, espero fortemente que o Terno Rei seja ainda mais divulgado pelo seu trabalho.
Ouça violeta