Colocado como um dos discos mais importantes da história, o OK Computer é um álbum maciço que contém diferentes aspectos que o tornam um dos trabalhos mais autênticos na música, seja pela sua poesia, sonoridade ou conceito.
O OK Computer colocou o Radiohead num patamar que a própria banda não estava preparada para estar naquele momento, e, provavelmente, ninguém em 97 esperava um álbum tão emblemático, filosófico e poético vindo deles, visto que haviam lançado dois álbuns numa base mais “maintream” e “britpop”. No documentário, Meeting People Is Easy, vemos nitidamente como toda a banda ficou transtornada pela imensa repercussão que o disco causou na época, o que culminou em sérios conflitos internos em Thom Yorke.
Todo o assédio da mídia em cima do Radiohead em relação ao OK Computer não era para menos, pois o disco veio como um choque no cenário musical, quebrando a hegemonia do britpop na Europa e agregando algo novo no mercado americano pós-Grunge, com uma sonoridade melhor trabalhada, uma produção fenomenal de Nigel Godrich, melodias imersivas, letras poéticas e profundas, uma temática forte e uma voz fina de tons tristes. Enfim, tudo era muito diferente do que vinha acontecendo na música até aquele momento.
Sobretudo, o OK Computer é o álbum onde vemos a maior evolução do Radiohead como banda, com a personalidade de cada membro melhor exposta nas músicas, como nas guitarras e teclados de Jonny Greenwood – as quais trazem timbres mais encorpados e com construções influenciadas por algo mais experimental e clássico, na guitarra atmosférica e viajante de Ed O’ Brien, no baixo de Colin Greenwood que vem para frente das músicas e conduz suas melodias e andamentos por diversas vezes, a melhor variação na bateria de Phil Selway e a voz de Thom Yorke que soa mais emotiva, implosiva e única.
Já na abertura do álbum, em Airbag, ouvimos as “novas” guitarras do Radiohead, uma soando como se fosse um violoncello – esticada e aveludada, e outra num arpejo de fundo com um timbre que percorreria todo o disco. O diálogo das guitarras nesta música aliado à melodia nauseante criada pela voz de Thom Yorke serve como uma barreira indigesta para aqueles que procuram uma sonoridade mais palatável e “pop”, mas também funciona como um sinal verde para aqueles que procuram por algo impactante, diferente e profundo.
As características principais de Airbag são utilizadas também em Subtarrean Homesick Alien, Let Down e The Tourist: arpejos intercalados e timbres viajantes de guitarra, uma voz mansa e um baixo bem presente – aspectos que, de certa forma, criam a essência do álbum.
O OK Computer é daqueles álbuns que contam com várias faixas de peso e que se destacam por si só. Essas músicas se tornaram grandes clássicos do Radiohead. São elas:
- Paranoid Android: uma loucura sonora guiada por uma letra visceral e irônica que conta com um dueto dançante entre o violão e o baixo, além de pancadas de guitarra e bateria que intensificam a sua energia maluca. A sua quebrada final é uma viagem ao centro emotivo e insano do Radiohead – um momento de reflexão sobre toda a paranoia criada pela poesia e melodia dessa canção estrondosa.
- Karma Police: faixa que traz a melodia mais palatável e a instrumentação mais comum do álbum – com um ritmo conduzido pelo violão e o piano. Sua letra, refrão e videoclipe fizeram dela uma das músicas mais marcantes na discografia do Radiohead.
- No Surprises: a canção mais delicada do disco e uma das mais lindas do Radiohead; uma melodia suave com timbres finos de xilofone e guitarra. Seu andamento é guiado pelo violão e o baixo que criam a base ideal para a voz de Thom Yorke emitir de forma sóbria seus pensamentos frágeis e reflexões sinceras.
Exit Music (For a Film), Lucky e Climbing Up The Walls são outras músicas fundamentais do disco! Não levam o título de clássicas, mas têm sua importância na discografia do Radiohead, as quais, inclusive, são tocadas frequentemente em seus shows:
- Exit Music é a “balada” do álbum, uma música pura e íntima que conta com uma levada mansa, confortante e quase sonolenta. Seu crescimento é uma das coisas mais profundas que a banda já fez.
- Climbing Up The Walls é a minha música favorita do Radiohead! Uma canção que emite toda a loucura, poesia, paixão e angústia que só o Radiohead é capaz de transmitir. Sua letra cantada por diferentes vozes sintetizadas fabricam um sentimento denso que nos leva às profundezas mais escuras da banda. Sua construção sonora revestida por fragmentos experimentais, uma guitarra berrante, um baixo contínuo e uma bateria áspera no fundo produzem uma arquitetura sonora de diversas texturas que, juntas, conduzem a canção para um final épico, intenso e desesperador, que termina num grito apavorante de Thom Yorke.
- Lucky é um hino do Radiohead em seus shows, a qual conta com um dos refrões mais lindos da banda, uma guitarra marcante e uma letra tocante. Sem dúvida é uma das músicas mais viajantes deles – é dar o play, fechar os olhos e cair num mundo único chamado Radiohead
No meio do álbum temos as duas músicas que fogem das características principais do OK Computer:
- Fitter Happier traz uma voz modulado/robotizada, sons experimentais e um piano de fundo. Apesar da sua parte sonora fugir das linhas melódicas do álbum, a sua letra segue a temática forte do disco, trazendo várias frases soltas com referência às ações das pessoas e do fluxo do sistema mundial. Por ser transmitida por uma voz robotizada, a música gera uma sensação estranha, enjoada e doentia.
- Electioneering é uma canção que lembra o Radiohead nos tempos de The Bends, pelo seu ritmo mais cativante e guitarras que são tocadas naquela ideia clichê de base+riff. É uma música que eu gosto, apesar da própria banda ter tido aversão a ela após o seu lançamento.
O Radiohead é uma das bandas mais enigmáticas da música, e o OK Computer foi o início dessa sua nova personalidade: mais profunda, sentimental e conceitual. O álbum em si é uma obra complexa e que merece ser analisada de diferentes perspectivas – poética, musical, literária e filosófica; mas para não deixar essa resenha muito extensa, quis focar no seu contexto básico, conceito e sonoridade. O disco pode ser indigesto para alguns, estranho para outros ou cansativo para quem gosta de um som simplório, mas, para aqueles que têm uma relação mais próxima com a arte, a poesia e a filosofia, absorver a obra maciça do OK Computer se torna algo infinitamente prazeroso, como se fosse uma conexão com algo/alguém que vem para sacudir a nossa mente e nos fazer refletir, sonhar e descansar, servindo como lugar de conforto e compreensão.
valeu pela força”
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