Raul Santos Seixas, ou para os íntimos, Raulzito, até antes de 1973, era apenas mais um fã do rock and roll tentando buscar seu espaço.
Após o fracasso comercial do álbum de sua primeira banda, “Raulzito e os Panteras”, de 1967, e de seu segundo projeto chamado “Sociedade da Grão-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10” de 1971, Raul decidiu se dedicar à carreia solo.
Ainda durante os obscuros anos de chumbo da ditadura militar brasileira, Raul se aventurou dentro dos estúdios da Phillips, com um álbum que recebe o título em referência aos quadrinhos do Tarzan, com uma frase que diz “cuidado, o inimigo vem ae”.
Raul não teve medo de ousar em suas composições ou na imagem que estava transmitindo.
Logo na capa vemos um Raul sem camisa a frente de um fundo preto, com as mãos estendidas como se fosse soltar alguma magia, dando início a sua fama de mago que ficaria maior ao longo de sua carreira.
Além disso, em sua mão direita está estampado o símbolo da sociedade alternativa, uma chave, a chave para o conhecimento e para abandonar o conformismo.
Raul já mostrava ali, sem ao menos uma música ser tocada, que vinha para fazer a diferença na música e em toda a estrutura social brasileira.
“Krig-Ha, Bandolo!” foi lançado no dia 21 de Julho de 1973, logo após o lançamento do compacto de “Ouro de Tolo”, que foi usado como maior campanha de marketing para o LP de estréia, e que será analisado mais a frente.
O álbum se inicia com uma introdução de apenas 50 segundos, com um Raulzito de menos de 10 anos, cantando uma canção de Elvis Presley chamada “Good Rockin’ Tonight”.
Ela diz mais sobre Raul Seixas do que qualquer outra do álbum. Ela mostra como ele chegou tá ali. Como teve inspiração e coragem para tantas composições incríveis que veríamos ao longo de sua carreira.
E principalmente, como ele conquistou seu título de “O pai do rock brasileiro”. Raul estava destinado à música.
O LP continua com a icônica faixa “Mosca na Sopa”. Raul junta o rock que tanto ama com a música nordestina que escutou a vida inteira, criando um estilo único de música que somente ele poderia fazer.
“Mosca na Sopa” já deixa bem claro quais são as intenções de Raulzito para com o governo e os conformistas. Ele quer incomodar.
Ele é a mosca que pousou na sua sopa e que pintou pra lhe abusar.
E deixa bem claro que ele não é o único dedicado à esse incômodo, uma vez que ele diz que se você o matar, vem outra no lugar dele.
Raul, como um tom satírico e ameaçador, já assusta ao regime militar logo de cara, mostrando que estava criando um movimento de inconformismo.
Outra faixa que se vale a pena destacar é a que acompanha a supracitada “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante”.
Uma das composições mais geniais do pai do rock de todos os tempos.
Mais uma vez uma afronta aos conformistas, mas dessa vez no campo das idéias, onde as pessoas tendem a se estagnar com o limitado conhecimento de mundo que pensam ter, e não mudam jamais sua cabeça sobre nada. Raul, por outro lado, abraça a ideia de que seus conhecimentos são limitados, e que ele prefere viver nessa mudança de pensamento e aprendizado constante do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo.
Raul estava começando a abrir a mente daqueles que estariam dispostos a mudar.
Ao longo do álbum, muitas faixas possuem composições provocativas, como “Dentadura Postiça”, onde durante a música todas escuta-se o refrão “vai cair”.
Mais uma gozação com o governo militar. A faixa “A Hora do Trem Passar” onde Raul nos proporciona uma reflexão sobre relacionamentos amorosos, que seria melhor explorada em uma outra música do álbum “Gita”, do ano seguinte, “Medo da Chuva”.
A música “Al Capone” traz alguns nomes da história que morreram em nome de algum movimento ou traição, onde Raul da conselhos à eles para que possam escapar da morte certa.
Alguns dos nomes citados são Lampião, Júlio César e até mesmo Jesus Cristo.
A fantástica “Rockixe” ilustra muito bem o estilo que une a música nordestina com o rock que Raul mostrou ao longo de sua carreira, com mais uma composição fantástica sobre rebeldia e autoconfiança no que faz, um típico rockeiro dos anos 50.
Mas Raul Seixas deixou sua marca eterna na música com a faixa de encerramento do álbum, a magnífica “Ouro de Tolo”. Musicalmente “Ouro de Tolo” possuí um esquema rápido de rimas com acompanhamento de cordas, mais semelhante ao que futuramente seria o rap do que a qualquer coisa da época. Raul utilizou “Ouro de Tolo” como divulgação para o álbum, quando convocou toda a imprensa para registrar sua apresentação na Avenida Rio Branco, onde cantou a faixa.
Sua aparição foi transmitida em horário nobre, no Jornal Nacional.
Isso fez com que as vendas tanto do compacto quanto do disco lançado meses depois atingissem números muito altos, tornando-se um sucesso quase instantâneo.
O grande triunfo de “Ouro de Tolo” está em sua composição de forma geral, a começar pelo título, que faz referência aos alquimistas da idade média, que prometiam transformar o chumbo em ouro.
A alquimia, na época, ainda possuía uma conotação espiritual de transformação, onde eles transformaram o espírito “pesado”, no caso o chumbo, em um estado de elevação, o “ouro”. Assim, Raul joga na cara de seus ouvintes que o verdadeiro ouro, a verdadeira elevação, está no despertar, está em abrir os olhos para o consciente individual e na construção da sociedade alternativa.
Longe do chamado “milagre econômico” da ditadura militar, com seu discurso triunfalista e orgulhoso.
O nosso pai do rock dá, com muita classe, um chute na boca de todos aqueles que acreditavam nos discursos do governo, mostrando eles como idiotas limitados, que não percebem a própria insignificância de seus desejos e contentamentos, como ter um carro ou um apartamento, um domingo de folga ou um emprego, enquanto que a situação no país estava péssima, com a censura em seu pico e propaganda ufanista muito forte. Destaque para o final da canção onde Raul diz que “Longe das cercas em embandeiradas que separam quintais, no cume calmo do meu olho que vê assenta a sombra sonora de um disco voador”, onde ele quer dizer que, longe dessas questões políticas que assombravam, e até hoje assombram, o mundo, Raul sonha com um mundo unido e livre, simbolizado pelo disco voador.
Mundo esse que existiria com a implantação da tão sonhada sociedade alternativa.
“Ouro de Tolo” é umas das mais importantes músicas já feitas. Foi eleita pela revista Rolling Stone a 12ª canção mais importante da história do Brasil, e elevou o álbum de estréia do nosso querido Raulzito, à algo lendário.
“Krig-Ha, Bandolo!” mantém-se até hoje como um dos mais importantes álbuns da história de nossa música.
Raul Seixas desde seu primeiro LP já mostrava que vinha para realmente fazer história e influenciar a mente dos jovens de várias gerações.
Raul deve ser celebrado até hoje como a figura mais importante do rock brasileiro e uma das mais importantes de toda a música. Por isso, em nome da boa luta por um mundo mais justo e menos violento que Raulzito sonhava, e também em nome da música de qualidade eu te digo, ouça “Krig-Ha, Bandolo!”.