Não existe na música, uma rivalidade tão grande quanto a que existe entre Megadeth e Metallica.
Diferentemente de Rolling Stones e Beatles por exemplo, onde a rivalidade está puramente na música e na disputa por mercado, esses dois gigantes do thrash metal compartilham uma história de ódio e traição entre seus membros.
Isso porque o guitarrista Dave Mustaine, antes de criar a lendária banda Megadeth, foi um dos membros fundadores do Metallica, junto de James Hetfield e Lars Ulrich. A banda tinha tudo para decolar nas paradas, Mustaine e Hetfield, apesar de brigarem constantemente, compunham canções de metal como John Lennon e Paul McCartney compunham nos anos 60.
Mas, por abuso de drogas e outros casos que até hoje envolvem polêmica, Ulrich e Hetfield decidem expulsar Dave Mustaine da banda antes mesmo do primeiro álbum ser lançado, e chamam um guitarrista de uma outra banda da época, o Exodus, para substituí-lo.
Kirk Hammet é o nome desse outro guitarrista. Mustaine teve a ideia para o Megadeth naquele mesmo dia, no caminho pra casa, onde sentia tanta raiva que só se sentiria tranquilo quando criasse uma banda que superasse o Metallica.
Mustaine nunca superou o que seus antigos colegas de banda fizeram com ele, e essa rivalidade rendeu muitas composições, entre elas a incrível “In My Darkest Hour”, onde Mustaine narra o momento em que descobriu a morte do baixista do Metallica Cliff Burton, e como ele ficou triste por não ter sido James Hetfield ou Lars Ulrich no lugar dele.
Seguindo a linha da matéria da semana passada, vamos fazer uma brincadeira de comparação entre dois dos maiores álbuns dessas duas bandas.
“Rust in Peace” de 1990 e “Master Of Puppets” de 1986. Uma análise básica faixa por faixa de cada álbum, para promover essa rivalidade, usando o mesmo esquema de começo meio e fim.
Então vamos começar pelo começo, naturalmente. Os dois disco começam de maneira explosiva, como um belo álbum de thrash deve começar.
Metallica abre com “Battery”, uma música que começa com um violão limpo e calma e então explode em puro thrash, tem como tema o cenário do metal da época e como as pessoas fora do movimento, não entendem o que ele é. Do outro lado, Megadeth abre “Rust in Peace” com o maior clássico da banda e um dos maiores hinos de todo o metal, a faixa “Holy Wars… The Punishment Due”.
Um épico do thrash metal, com ritmo que varia ao longo da canção entre o lento, o frenético e acústico e explosivo e pesado. As letras falam sobre o conflito entre Israel e Palestina, onde Mustaine crítica a guerra religiosa de forma geral, apontando os horrores dela.
“Holy Wars… The Punishment Due” é uma constante em todos os shows do Megadeth, sendo tocada no encerramento de todas as suas apresentações.
“Rust in Peace” continua com mais uma faixa poderosa, a canção “Hangar 18”, idealizada e escrita pelo baterista Nick Menza e composta musicalmente por Dave Mustaine.
“Hangar 18” fala sobre teorias alienígenas nos Estados Unidos, que devido ao cinema da época, era um assunto muito popular.
A faixa possuí um dos melhores trabalhos de guitarra do álbum, e apresenta uma versão acelerada de um trecho de guitarras que Dave Mustaine compôs para o Metallica, na última canção pela qual ele recebeu créditos no Metallica, a instrumental “Call of Ktulu” do álbum “Ride the Lighning”.
Do outro lado e já encerrando a parte inicial do álbum, o Metallica vem com uma das maiores e mais poderosas canções de todo o metal, a faixa título “Master of Puppets”.
Essa música dispensa comentários, tudo nela é referência quando se trata de thrash metal, os riffs, os solos, a letra, tudo.
“Master of Puppets” pode não ser sua canção favorita do thrash metal, mas com certeza é a canção mais importante do gênero. E encerrando a parte inicial do álbum, Megadeth nos apresenta “Take no Prisioners”. Não é a toa que esse álbum é lembrado como um dos maiores do thrash.
“Take no Prisioners” possuí, novamente, trabalhos de guitarra incríveis, especialmente no riff inicial, e letras fortes sobre uma ordem de extermínio de prisioneiros de guerra, com referência até mesmo a doença tifo, que matou milhares de judeus dentro dos campos de concentração nazistas.
As partes iniciais desses álbuns estão entre as melhores de toda a música.
O Metallica abre a parte do meio do álbum com “The Thing That Should Not Be”, que assim como a faixa instrumental supracitada nesse texto “Call of Ktulu”, faz referência à obra do escritor H. P. Lovecraft, mostrando que realmente são fãs da literatura do autor.
Apesar da temática interessante e de um instrumental bem atmosférico “The Thing That Should Not Be” não é especialmente marcante dentro da discografia da banda, e não é lembrada tão frequentemente quanto as outras faixas do álbum.
O Megadeth inicia a parte do meio do album com a canção “Five Magics”, que possuí dois solos de guitarra maravilhoso de Dave Mustaine, que iniciam e encerram a faixa.
As letras possuem inspiração no ocultismo, com referências a bruxaria, alquimia e é claro, magia. Várias canções da banda possuem essa temática. “Five Magics” é seguida por “Poison Was The Cure”, que possuí uma história profunda sobre o uso de drogas em suas letras, onde Mustaine conta o êxtase de usar heroína pela primeira vez, mas como a longo prazo isso se torna algo prejudicial à própria vida.
O título é uma referência à metadona, que apesar de também ser algo perigoso à saúde, é usado na superação da dependência de heroína, assim, o veneno se torna a cura.
Mesmo com uma letra mais séria e profunda, a música também não é frequentemente lembrado pelos fãs como um dos melhores trabalhos do Megadeth.
O Metallica da continuidade ao álbum com a clássica “Welcome Home (Sanatarium)”. A faixa traz, novamente, um começo mais lento, e vai ganhando mais velocidade e peso conforme a música avança.
As letras falam sobre estar preso em uma mente insana, ou até mesmo em uma instituição para doentes mentais, um sanatório.
A progressão vocal da faixa se torna mais forte conforme as letras vão se tornando mais pesadas, e a música se encerra com dois solos de guitarra, dois solos de bateria, e com um possível motim dento do sanatório.
“Welcome Home (Sanatarium) é uma clássico absoluto da banda e é sempre lembramos por fãs como um dos auges da discografia, assim como sua sucessora “Disposable Heroes”, que possuí as letras mais profundas do álbum, sobre guerra, poder e manipulação, abrangendo ainda outros temas como o sistema e até mesmo a morte.
Isso aliado a um instrumental poderosíssimo, com um dos melhores trabalhos de bateria de Lars Ulrich em toda a discografia da banda.
“Disposable Heroes” pode não ser tão lembrada quanto as outras faixas do álbum, mas é uma poderosa e crítica pedrada da banda. Essa é a música que fecha a parte do meio do “Master of Puppets”.
E encerrando a parte do meio de “Rust In Piece”, temos a faixa “Lucretia”, que apesar do nome ser inspirado em Lucrécia, figura famosa da história do império romano, a letra de baseia unicamente em um fantasma que Dave Mustaine jura ter visto em seu sótão.
A música não é constantemente lembrada com tanto carinho pelos fãs, e por isso não é tocada nos shows. Ela fica obsoleta em relação às outras canções do álbum.
E, dando início a parte final dos álbuns, Megadeth nos presenteia com um petardo maravilhoso chamado “Tornado of Souls”.
Os trabalhos de guitarra dessa música são de longe o ponto alto da carreira de Marty Friedman. É som de altíssimo nível do começo ao fim.
As letras narram a história triste do fim de um relacionamento, pois Mustaine havia terminado com sua noiva poucos dias antes de escrever a música, e relata seus sentimentos nas letras.
A composição gerou polêmica pois no final, fica subentendido que o personagem teria matado sua ex companheira, mas Mustaine desmentiu isso. Do outro lado, Metallica inicia seu final com “Leper Messiah”.
A música gira em torno de um falso profeta que controla seus seguidores para obter sucesso financeiro e reconhecimento.
A música ganhou notoriedade quando Dave Mustaine alegou ter composto os riffs de guitarra dessa música em seu período com a banda.
Essa afirmação nunca foi comprovada, e visto que não há crédito algum à Dave, isso é levado como apenas um boato. Mas somente quem compôs a canção sabe a verdade sobre o assunto.
Apesar do riff poderoso que possuí, a música também não é constantemente lembrado por fãs como um marco da banda.
“Leper Messiah” é sucedida por “Orion”, uma faixa instrumental da banda, que recebeu esse nome inspirado na Constelação de Orion.
“Orion” é lembrado com muito carinho pela maioria dos fãs por apresentar um trabalho de baixo incrível de Cliff Burton, seu último grande trabalho com o Metallica.
As linhas de baixo dessa música ganharam tanta notoriedade que ela foi escolhida para ser tocada em seu memorial. Uma bela despedida para um grande baixista.
Megadeth da continuidade ao “Rust in Peace” com “Dawn Patrol”, que faz uma crítica rígida à maneira como conduzimos nossas vidas profissionais, e ao descaso com o meio ambiente, nos transformando em verdadeiros zumbis respiradores de fumaça quando acordamos cedo para trabalhar.
“Dawn Patrol” é a faixa mais curta do álbum, com menos de 2 minutos de duração, e é facilmente esquecida por fãs da banda.
No contexto do álbum ela se torna obsoleta e inferior, especialmente quando comparada à sua sucessora, “Rust in Peace… Polaris”, que é a faixa final do álbum.
“Rust in Peace… Polaris” traz um trabalhos excepcional de bateria e letras que criticam a guerra, trazendo referências a guerra nuclear e fria, até mesmo no título, pois o fim da guerra nuclear da canção seria “Polaris” que tem esse nome devido ao míssil intercontinental UGM-27 Polaris.
Uma faixa poderosa que encerra um álbum poderoso.
Do outro lado, o “Master of Puppets” se encerra com “Damge Inc.”, que novamente utiliza-se da fórmula de começar de maneira calma e suave, e explodir em um determinado momento.
A canção traz as letras mais pesadas do álbum, sendo a única à receber censura, abordando temas como a violência e destruição gratuitas.
A música foi a última a ser gravada com Cliff Burton, e apesar de cumprir seu papel de maneira exemplar, não traz nada de espetacular para o encerramento. O encerramento decente, para um álbum lendário.
Todos nós temos nossas preferências. Não é a toa que essas bandas são lembradas como as maiores do thrash, junto de Slayer e Anthrax, e também não é a toa que esses álbuns são celebrados como os mais importantes do gênero.
Metallica e Megadeth fizeram história em suas carreiras e estão até hoje nos proporcionando canções novas e shows incríveis.
Portanto, a única maneira decente de se celebrar a grandeza desses medalhões do metal é, obviamente, ouvindo.
Então ouça “Master Of Puppets” e ouça “Rust in Peace”, e se tiver coragem, escolha seu favorito.