Batalha de álbuns: Let It Be vs Let It Bleed
Beatles ou Stones? A maior rivalidade entre os fãs de rock dentro da musica.
Duas das bandas que poderiam ser consideradas como as mais importantes de todos os tempos. Como escolher entre uma ou outra?
Seria impossível escrever um texto sobre qual das duas é melhor ou mais importante.
Para abordar esse assunto com profundidade seria necessário escrever um livro.
Sem falar que essa escolha é baseada muito mais em gosto pessoal do que fatos.
Porém, no mundo da música existem muitas brincadeiras que são feitas envolvendo essa rivalidade, principalmente batalha entre álbuns.
Algumas comuns são “Their Satanic Majesties Request” vs “Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band”, ambos de 1967, ou o “White Album” vs “Exile on Main Street”, já que ambos são duplos.
Porém nesse texto vamos dissecar a batalha que na minha opinião é a mais interessante da discografia dessas duas lendárias bandas, uma vez que são álbuns lançados em épocas muito próximas e possuem até um trocadilho com os seus nomes. “Let It Be” vs “Let It Bleed”.
Fazer uma análise profunda desses álbuns requer muito mais do que um simples texto.
É possível escrever páginas e páginas sem parar apenas sobre um deles. Portanto nesse texto vamos fazer uma comparação faixa por faixa superficial, e deixar o vencedor da batalha à interpretação dos fãs.
“Let It Bleed”, lançado em 5 de Dezembro de 1969, é o décimo álbum de estúdio dos Rolling Stones, sendo o último a ter participação de Brian Jones, um dos criadores da banda, que foi expulso da banda e morreu pouco tempo depois.
O álbum atingiu o topo das paradas britânicas e está presente em diversas listas de melhores álbuns de todos os tempos, como a da revista Rolling Stone e a do Rock and Roll Hall of Fame.
“Let It Be”, lançado em 8 de Maio de 1970, seis meses após “Let It Bleed”, é o décimo terceiro álbum dos Beatles, e o último álbum de estúdio a ser lançado. O álbum havia sido gravado antes do álbum “Abbey Road”, que havia sido planejado para ser o encerramento da carreira da banda, porém, suas faixas foram encontradas pelo produtor americano Phill Spector, que lançou o álbum.
A princípio o projeto se chamava “Get Back” e era um pouco diferente da versão final. O álbum rendeu um filme no mesmo ano, que deu aos Beatles um Oscar de melhor trilha sonora. Anos depois o álbum receberia uma segunda versão chamada “Let It Be… Naked”, que é como a banda havia imaginado o álbum a princípio.
Devido à diferença de faixas entres as duas obras, tomei algumas liberdades para facilitar o trabalho. A análise será entre as faixas, porém dividas entre começo meio e fim. “Let It Bleed” possui 9 faixas, 3 no começo, 3 no meio e 3 no fim. “Let It Be” possui 12, 4 no começo, 4 no meio e 4 no fim.
Muito simples. Então vamos começar.
No início, mais especificamente na primeira faixa, os Stones saem muito a frente, com a música “Gimme Shelter”.
Um épico da banda, um esplendor instrumental e vocal, com letras críticas e distópicas, ao estilo dos Stones. Uma das melhores e mais perfeitas músicas de todo o rock.
Enquanto que os Beatles iniciam o “Let It Be” com “Two of Us”.
O álbum inteiro possuí uma pegada mais country, mais acústica e menos experimental. “Two of Us” é uma bela faixa, muito agradável e coerente com o resto do álbum, mas infelizmente é um pouco esquecível em relação a discografia da banda.
Após “Two of Us” temos “Dig a Pony”, composta por John Lennon, que disse que achava a música um pedaço de lixo.
Apesar de ter sido um pouco duro demais consigo mesmo, a faixa realmente não impressiona. Lennon escreveu-a em homenagem à Yoko Ono, e a letra apenas diz coisas sem sentido, seguida do refrão “All O Want is You”. Do ouro lado, os Stones dão continuidade ao álbum com a faixa “Love in Vain”, que é um cover.
A música original foi escrita pelo gênio das guitarras do blues, Robert Johnson, em 1937. Sem muito o que falar aqui, a inspiração maior dos Stones sempre foi o blues, e é um cover muito bem feito.
O primeiro ponto fraco do álbum vem com a faixa número 3, “Country Honk”, onde os Rolling Stones simplesmente cometem um ato de auto plágio, de sua música de sucesso “Honky Tonky Women”.
A música é igualzinha, não possuí muita inspiração ou identidade. Já no Let It Be temos o primeiro grande acerto do álbum, a faixa “Across The Universe”, também escrita por John Lennon.
A faixa possuí uma pegada “astral”, com suas letras e edição falando sobre assuntos místicos.
“Across the Universe” foi transmitida para o espaço em 2008, em uma celebração dos 50 anos da NASA e os 49 anos da música. A quarta faixa do “Let It Be” é “I Me Mine”.
Infelizmente também não apresenta nada de emocionante ou especial, e de maneira discutível, pode ser considerada a faixa mais fraca já escrita por George Harrison na banda.
Entrando agora na fase do meio dos álbuns, como combinamos anteriormente, o “Let It Be” vem com uma faixa de apenas 50 segundos chamada “Dig It”, onde ouvimos John Lennon dizendo coisas sem contexto, citando nomes de corporações como CIA e FBI, e até mesmo o nome dos Rolling Stones é citado.
É uma das poucas faixas creditadas à todos os Beatles, e ela não foi incluída na versão naked. “Dig It” é seguida da faixa título, “Let It Be”, música que dispensa comentários.
Uma das mais belas e reconhecidas composições de toda a história da música. Apenas sobre essa faixa daria para se escrever um texto a parte, e ele não seria curto.
No “Let It Bleed”, os Stones iniciam sua parte do meio com a música “Live With Me”, a primeira à conter as guitarra do grande Mick Taylor, que substituiria Brian Jones após o álbum. As letras da música geraram muita polêmica na época, por falar sobre drogas, sexo e estilo de vida autodestrutivo, e apesar de nunca ter sido lançada como single, a banda frequentemente apresenta a música ao vivo.
Os Beatles novamente nos apresentam uma faixa de duração de menos de um minuto e com créditos à todos da banda, dessa vez “Maggie Mae”.
Sem muito o que dizer aqui, a música fala sobre uma prostituta que foi presa por roubo, e não apresenta nada de interessante no aspecto instrumental ou lírico da banda. Depois da pesada letra de “Live With Me”, os Stones vem com uma letra tão pesada quanto, na faixa título “Let It Bleed”.
A música novamente traz menções às drogas e ao sexo, de maneira explícita e até violenta, uma vez que o tema principal da música é a dependência, seja física, seja química.
A banda inclusive usa os termos “todos precisamos de alguém para sangrar em cima” dando referência as drogas, e “todos precisamos de alguém para gozar em cima” fazendo de maneira polêmica ao estilo dos Stones, sua referência ao sexo.
Os Beatles fecham a parte do meio do álbum com a música “I’ve Got a Feeling”, que na verdade é a junção de duas faixas inacabadas da banda, uma escrita por John Lennon e a Outra por Paul McCartney.
A faixa tem vocais poderosos do Paul, e um dos melhores trabalhos de guitarra do álbum. Apesar de não ser constantemente lembrada como uma, é uma grande faixa da banda.
E, fechando a parte do meio, os Stones trazem “Midnight Rambler”.
Mais uma faixa polêmica, mas dessa vez com uma história mais interessante. A faixa é celebrada pela banda por ser a canção de número 50 composta por Keith Richards e Mick Jagger juntos, e eles dizem que ninguém poderia ter feito uma composição como aquela.
A polêmica vem da temática da música, que é uma mini ópera do blues que conta a história do “estrangulador de Boston”, Albert DeSalvo, que confessou ter assassinado 13 mulheres no começo dos anos 60.
Apesar da temática pesada, “Midnight Rambler” possuí um instrumental incrível, e é umas das melhores obras da banda.
Abrindo a parte final dos discos, Beatles vem com “One After 909”, que na realidade foi uma das primeiras canções escritas por Lennon e McCartney em conjunto, no ano de 1957, porém só foi lançada em 1970.
A música possuí um ritmo bem animado, e a letra é inspirada em um possível mal-entendido sobre o número de um trem.
Por ter sido uma das primeiras composições da dupla, “One After 909” é lembrado com muito carinho pelos fãs da banda, e não deve nada ao resto da discografia.
No “Let It Bleed”, os Stones dão continuidade com a música “You Got The Silver”, que representa dois marcos na banda.
Foi a primeira faixa com vocais inteiramente gravados pelo guitarrista Keith Richards, e a última a ter a participação de Brian Jones.
A música não foi apenas cantada por Keith, também foi composta, e ele escreve uma homenagem a sua namorada da época. Uma música novamente com uma pegada de blues antigos, não muito marcante, mas não estraga o ritmo do álbum.
Do outro lado, temos uma das composições mais conhecidas de Paul McCartney, “The Long and Widing Road”, que é uma belíssima balada romântica ao estilo do Paul, com uma composição geral pra ninguém botar defeito, letras maravilhosas e acompanhamento perfeito de Paul no piano.
A faixa é seguida por “For You Blues”, a segunda composição de Harrison para o álbum. Como diz o nome, a canção é um blues em que George declara seu amor por uma mulher, nenhuma em específico, é apenas um blues romântico.
E enquanto os Beatles estão falando de amor, os Stones dessa vez fazem uma homenagem ao artista italiano Mario Schifano, conhecida por sua arte pop e filmes, que teria sido apelidado de homem macaco pelos próprios Stones na música.
Um trabalho instrumental muito interessante da banda, especialmente com o uso do piano no começo da música. Os dois álbuns terminam de maneira incrível.
De um lado, os Beatles encerram o “Let It Be” com “Get Back”, composta por Paul McCartney. A faixa tem um trabalho muito bom de guitarra por parte do George Harrison, e é marcada como uma das poucas obras onde o trabalho destaque não é de um dos membros da banda, mas sim do músico convidado pela banda, o tecladista Billy Preston, que tem outras participações ao longo do álbum, mas que é o diferencial nessa faixa, com um belo solo de teclado.
Uma das músicas mais animadas e contagiantes do álbum, e que a princípio foi idealizada como a música de abertura.
Já os Rolling Stones fecham o “Let It Bleed” com a clássica “You Can’t Always Get What You Want”. A música apresenta um dos melhores usos de vozes de todo o rock, com um coral guiando o refrão inicial e tendo participação marcante na música toda.
A letra da música é um passeio por todas as temáticas importantes da década de 60, a paz e o amor, as drogas e a política, com cada verso da música captando a fundo a essência otimista do período, e aos poucos mostrando a desilusão. ” You Can’t Always Get What You Want” é presença certa em todas as apresentações ao vivo dos Stones, e foi a canção escolhida para ser tocada na live “One World: Togheter at Home”, realizada em 2020 para arrecadar fundos para as vítimas do Corona Vírus.
Após esse passeio superficial por esses dois discos, eu tenho ainda mais certeza da dificuldade de escolher uma dessas obras ou bandas.
O rock é um dos gêneros musicais mais ricos da história, e com duas bandas tão gigantes quanto essas, é inútil debater superioridade, e essencial aproveitar o som.
Por isso com certeza ouça “Let It Be” e ouça “Let It Bleed”, e se tiver coragem, escolha seu favorito.