A ópera, por definição, é o gênero teatral que une o drama encenado com a música, colocando atores e músicos para trabalharem em conjunto.
O drama é realizado com aspectos teatrais, ou seja, figurinos, e interpretações exageradas, e poderia apresentar diálogo falado ou não.
Já os músicos acompanhavam o ritmo dramático da obra, e poderiam ser até mesmo uma orquestra sinfônica inteira. O rock, de maneira extremamente resumida e superficial, é o gênero musical que evoluiu do blues e do country nos anos 50 e que ao longo do tempo se dividiu em incontáveis subgêneros. Normalmente bandas de rock são compostas por quatro integrantes, podendo variar mas seguindo um determinado padrão de instrumentos, sendo eles um guitarrista, um baterista, um baixista e um vocalista.
A união desses dois gêneros tão distintos ocorreu no fim da década de 60, dando origem às chamadas óperas rock, que são obras de rock com uma narrativa coesa, tendo uma história com começo, meio e fim apresentada por partes ou canções, assim diferenciando-se dos álbuns tradicionais, uma vez que a obra toda é unificada em uma narrativa.
Existe muita controvérsia sobre quem foram os primeiros artistas a realizarem uma ópera rock.
Os primeiros álbuns com esquema narrativo datam de 1967 e 1968, sendo respectivamente o álbum “The Story of Simon Simopath” da banda inglesa Nirvana (não confundir com a banda de grunge americana Nirvana), e o álbum “Sorrow”, da banda inglesa Pretty Things. Porém, a banda que normalmente é creditada como criadora do gênero é o lendário The Who, pois além de compor a “mini ópera” “A Quick One” no álbum de mesmo nome lançado em 1966, que poderia ser considerada como o primeiro trabalho operístico dentro do rock, eles lançaram em 1969 o álbum mais importante das óperas rock, creditado diversas vezes como a primeira da história, o magnífico álbum “Tommy”.
The Who é uma das poucas bandas que podemos chamar de perfeita.
Todos os integrantes podem facilmente entrar em listas de melhores da história em suas respectivas posições.
Roger Daltrey com vocais épicos e arrepiantes em todos as obras da banda, John Entwistle, apelidado de Thunderfinger (dedos de trovão) com seu baixo poderoso e pesado, ditando o ritmo das músicas.
Keith Moon com seu estilo caótico e explosivo de tocar é simplesmente o baterista perfeito para o The Who, e na minha opinião o melhor bateristas de todos os tempos. E, é claro, Pete Townshend, que além de um excelente guitarrista é a cabeça por trás da banda, sendo maior compositor e o grande idealizador da “primeira” ópera rock da história.
“Tommy” apresenta o melhor de todos os integrantes do Who, sendo o auge criativo da banda. O álbum duplo é uma lição de música e composição do começo ao fim, sendo 75 minutos de rock and roll da mais alta qualidade e uma narrativa única, nunca antes vista em um disco do gênero.
O enredo de Tommy, criado exclusivamente pelo guitarrista Pete Townshend, acompanha a história de um pequeno garoto inglês, Tommy Walker, cujo pai foi dado como morto em combate, visto que era um soldado durante a segunda guerra mundial. O título do álbum, Tommy, também era um apelido dado aos soldados ingleses que lutaram na guerra. Após surpreendentemente retornar vivo para casa, o pai de Tommy encontra sua esposa, mãe de Tommy, com um amante na cama, e em um momento de fúria, mata o homem ali mesmo, morte essa que foi vista pelo jovem Tommy através de um espelho.
Quando se deram conta do que havia acontecido, os pais de Tommy tentam convencê-lo de que ele não viu nem ouviu nada daquilo, gerando um trauma no garoto, que se tornou cego, surdo e mudo.
Em seu estado de incapacidade, Tommy encontra dentro de sua mente a figura de um homem barbado com cores brilhantes, que o ensina a transformar as vibrações do mundo ao seu redor em música, dentro de sua cabeça.
Com isso vamos vivendo as experiências da vida Tommy, seja através da narrativa ou dos longos instrumentais que simulam a percepção do garoto sobre o mundo ao seu redor. Conforme os anos vão se passando, os pais de Tommy procuram diversos meios de curá-lo, o levando à igreja, dando drogas à ele e o levando à diversos médicos.
Durante essa jornada, Tommy sofre abusos de membros de sua família, como seu primo que o machuca e tenta afoga-lo, ou seu tio alcoólatra, que o abusa sexualmente.
Com tudo que acontece em sua vida, o rapaz é deixado sozinho em casa e chega até uma máquina de pinball.
Com sua sensibilidade para as vibrações ao seu redor, Tommy se mostra um jogador incrível, mesmo sendo cego, surdo e mudo, pois tinha a habilidade de se tornar um com a máquina. É nesse momento do álbum que a faixa de maior sucesso nos é apresentada, a grande “Pinball Wizard”, a única lançada em um single. Depois de se tornar campeão mundial, Tommy e sua família ficam milionários e vão a um médico especializado, que descobre que a única coisa que Tommy consegue perceber ao seu redor além de vibrações, é seu próprio reflexo, o que faz com que o rapaz ficasse horas parado na frente do espelho.
Sua mãe clama de maneira desesperada por ele, mas Tommy não responde, o que leva a mulher a destruir o espelho para o qual o garoto olhava, o que magicamente o libertou de sua terrível condição. Ao se libertar, Tommy é tratado como um messias, que possuí conhecimentos de vida que nenhum outro homem possuí, e que ele é a cura e a salvação da humanidade.
Tommy abre um acampamento para acolher seus seguidores e ensina-los o caminho, deixando-os sem enxergar, escutar ou falar para que pudessem entender o que o levou o até aquele lugar.
Infelizmente alguns de seus seguidores estavam usando drogas e bebendo em seu acampamento, o que leva Tommy a decidir expulsá-los, gerando um motim e uma potencial destruição do acampamento.
O final dessa obra é ambíguo, deixando a conclusão à interpretação dos ouvintes. Será que Tommy realmente era o salvador e levou aquelas pessoas à uma certa elevação? Tudo foi de fato destruído? Jamais saberemos.
É claro que o enredo de “Tommy” é bem maluco, mas isso por que ele não é algo tão simples.
A narrativa é muito mais metafórica do que qualquer outra coisa. Pete Townshend fez de maneira subliminar uma história que contasse sua própria vida, cheia de metáforas e analogias. Exemplo disso está nas faixas “Cousin Kevin” e “Fiddle About” que falam dos traumas de infância do Pete, que foi abusado sexualmente. Ou a faixa “Acid Queen” que mostra o impacto das drogas em sua vida. Porém, “Tommy” é uma obra na qual o guitarrista tenta passar as mensagens do guru indiano Meher Baba, o qual exerceu grande influência em sua vida. Meher Baba adotou um estilo de vida simplista e fez um voto de silêncio que durou de 1925 até sua morte.
O guru se comunicava apenas através de escritas e gestos.
Baba teve uma grande influência na vida de Pete Townshend, a ponto de inspira-lo a escrever um álbum duplo completo, para assim passar as mensagens do guru.

O disco é uma jornada de autoconhecimento, onde Pete Townshend, através de um rock and roll maravilhoso, nos ensina o valor da reflexão e da superação.
Onde para que possamos fazer a diferença no mundo com nossas ideias, devemos primeiro abrir mão de nossos egos e viver somente pelos outros e com nosso subconsciente, absorvendo tudo ao noss redor.
“Tommy” é um álbum completamente revolucionário, que alterou em definitivo os rumos da música e continua sendo a ópera rock mais importante de todas.
“Tommy” recebeu uma adaptação para o cinema, onde Roger Daltrey interpreta o protagonista.
Há nesse filme uma cena hilária onde Tommy enfrenta o campeão mundial de pinball, interpretado de maneira cômica pelo grande Elton John, que enquanto canta a música “Pinball Wizard” joga pinball usando botas que devem medir cerca de 2 metros.
A atriz que interpreta a mãe de Tommy foi indicada ao oscar naquele ano. O álbum também ganhou uma adaptação para os teatros, sendo exibido até hoje na Broadway.
“Tommy” também é responsável por algumas das apresentações mais marcante do The Who, que sempre foi reconhecida como uma das bandas mais explosivas e contagiantes ao vivo.
O álbum também aparece na lista da Rolling Stone dos “500 maiores álbuns de todos os tempos”, na posição 96, e o canal VH1 incluiu “Tommy” em sua lista dos 100 maiores álbuns de todos os tempos.
Se você ainda não se convenceu de que este é um dos melhores álbuns de todos os tempos, então talvez você o rock não seja o gênero para você.
Mas caso você tenha se convencido fica a mensagem, ouça “Tommy”.